:: Metamorfose de Monstros ::

Filhos do Lamentável Mundo Novo, este blog têm vida própria. Esta que vos escreve é apenas um instrumento de um Monstro tão belo quanto Apolo e tão feio quanto Pã. Este blog não têm proposta alguma, não defende nenhuma causa, seja ela política, religiosa, sexual ou filosófica. Foi feito por puro sentimento; ora de dor, ora de prazer ( mas afinal, a arte não é isso?).
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Lisa Alves

Brasília-DF

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:: Sexta-feira, Outubro 03, 2008 ::

CARTA DE UM MOCHILEIRO - PARTE VI






Eu queria ver no escuro do mundo
Aonde está o que você quer
Pra me transformar no que te agrada
No que me faça ver
Quais são as cores e as coisas pra te prender
Eu tive um sonho ruim e acordei chorando
Por isso eu te liguei

Quase um Segundo - Herbert Vianna


Esses dias tive um sonho ruim – desses que confundem a mente de qualquer humano. Sonhei que minha vida toda era uma grande mentira. Eu estava em um lugar fechado, pessoas observavam-me de uma forma analítica, senti um cheiro de medicamentos misturados e meu corpo encontrava-se totalmente dormente. Consegui ouvir uma conversa entre um homem e uma mulher. A voz feminina era totalmente familiar: “Jamila? Jamila é você? O que eu estou fazendo aqui, amor? Jamila, eu quero ir embora!” Mas percebi que alguma coisa impedia que ela me escutasse, minha boca estava lacrada e o homem dizia a ela que o paciente em questão tinha passado por sérios tratamentos, mas nenhum foi eficaz: “ Infelizmente o paciente insiste em acreditar que é um viajante e que está fugindo de uma tal Beatriz, a família afirma que essa mulher é fruto da sua imaginação e as viagens também.”

Acordei, como é bom acordar... Virei para o lado e Jamila estava ali - com o mesmo cheiro, a mesma camisola, o mesmo jeito de dormir. Tive que abraçá-la, precisava agradecer por ela fazer parte da minha realidade. E era o mesmo abraço, o mesmo jeito de despertar - calmo, delicado e generoso.

O quê foi amor? – ela perguntou aproximando seus lábios ao meu rosto.

Eu tive um sonho ruim. Sonhei que minha vida era uma grande mentira.

E agora que você acordou, sua vida é uma grande verdade?

Não sei. – respondi assustado, pois voltei a sentir o mesmo cheiro de medicamentos misturados.



Lisa Alves


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:: Quarta-feira, Setembro 24, 2008 ::
CARTA DE UM MOCHILEIRO - PARTE V


Jan Saudek


Falam sobre passagens para outros universos, alguns não acreditam, outros temem e o que posso afirmar sobre a existência de algo tão óbvio? Aprendi que cada um
carrega multi-universos e para penetrar um mundo novo é necessário conquistar o outro. Não existe terra prometida, não existe promessa a espera, tudo nessa vida
acontece a base de conquistas, invasões e estratégias.

Não voltei, não acredito em voltas, mesmo que o ponteiro do relógio faça o mesmo trajeto de ida e volta, cada minuto é um tempo e tudo é transformado. Ainda aprecio os mesmos pratos de comida, a mesma bebida, mas já não mastigo a comida pensando nas mesmas coisas ou sentido falta da companhia da mesma pessoa. É estranho esse estar em sim, esse estar em outro, pois já não sou o mesmo e não posso modificar esses novos objetos que carrego comigo. Não estou completo, creio que nunca estarei e suspeito que o mundo completo não passa de uma utopia.

A primavera anuncia mais mudanças, a primavera anuncia a chegada e a partida de pessoas. Consigo sentir o adeus de Beatriz e ouço a porta sendo aberta por Jamila. E pela primeira vez sinto-me a vontade de esperar pois sei que depois de algumas horas Jamila sempre volta.


Lisa Alves


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:: Quinta-feira, Setembro 04, 2008 ::
ENQUANTO VOCÊ COCHILA
Ou
A Lei Do Mais Forte








Imagem: Sandman - Galeria

“Mas, quem és tu, ó homem, que a Deus replicas?
Porventura o vaso de barro vai dizer ao oleiro:
Por que me fizeste assim?”
Romanos Cap. IX, vers. XX





Um redemoinho carregado de flores brincava no jardim e a menina corria atrás dele apenas para provar para a natureza que ela conseguia alcança-la. Além de correr também imitava o movimento dos ventos contrários e vez por outra sentia que possuía o mesmo poder de varrer tudo. Correu por cima dos canteiros e as flores se libertaram de suas raízes somente para acompanha-la, as folhas mortas que anunciavam o outono decidiram imediatamente ressuscitar e nem mesmo o redemoinho conseguira em toda sua jornada tamanhos seguidores. Diversas borboletas formaram um circulo ao seu redor e naquele momento ela sentiu que aquilo era uma confirmação positiva da natureza “Sim, você é uma de nós.” Um barulho forte e repetitivo fez com que as borboletas se afastassem dela e o som se tornava cada vez mais insistente. Era impossível detectar de onde surgia, pois o mesmo parecia não fazer parte daquela realidade e realmente não fazia, mas era real, tão real quanto a porta de seu quarto que a mãe já pretendia derrubar. “Meninas, já são seis e meia! Será que tenho que repetir toda manhã que o pai de vocês não gosta de tomar o café sozinho?”.

Caminhar e correr seriam ações obtidas apenas nos sonhos e na lembrança da menina. Quando acordava sempre era recepcionada por uma cadeira de rodas que a acompanhava desde os trezes anos de idade. Clarice se superava a cada manhã com suas pseudo justificativas para sua condição de inválida “Porque não sou válida?” e dava-se ao luxo da resposta “Você é um produto que foi estragado durante o trajeto ao mercado humano.”. Na mesa de café observava Paula, a irmã mais nova, que carregava no espirito (o que Clarice duvidava que a mesma possui-se) um apego material por coisas desnecessárias. A irmã teve oportunidade de não ser um produto estragado, contudo vivia consumindo produtos estragados. Clarice se imaginava com as pernas da irmã, não tinha inveja daquele par de pernas, porém, tinha consciência que saberia usufruir melhor das mesmas. A mãe serviu panquecas com suco de laranja às duas meninas. Paula para não mudar a rotina, reclamou, pois não conseguiria engolir, conforme denominara, aquele café de plebeus. Clarice tinha uma vontade enorme de disputar aquelas pernas com a inútil da irmã. Sentia-se como um animal estudado por Darwin, um animal lutando para sobreviver, um animal que se considerava mais forte, mais viril, com genes superiores que poderiam se proliferar em varias gerações. “O que Paula poderia deixar de útil aos seus descendentes?” e logo em seguida obtinha a resposta, “Apenas um caracter de indivíduo catalogado.” Sua irmã era apenas mais uma “persona” dessa civilização cinematográfica, cujo roteirista estava sendo patrocinado pela mais nova indústria da moda.

Clarice tinha terminado o ensino médio, todavia ainda não decidira qual o curso concluiria para justificar para a sociedade e família sua utilidade como cidadã. Tinha um gosto supremo por ciências biológicas, adorava ficar estudando os movimentos dos seres vivos, tinha até uma coleção de insetos exóticos e quando não encontrava algum em seus catálogos, arriscava batiza-los como bem queria. Não obstante, sua habilidade com a ciência biológica era fruto da inércia causada pela deficiência física que a levava ficar horas lendo enciclopédias e projetando armadilhas para pegar os insetos que ousavam invadir seu espaço. Igual a habilidade que a mãe tinha com a cozinha que não passava do fruto de uma cultura interiorana que herdara de seus ancestrais. Já a futilidade da irmã, era fruto de uma síndrome de pseudo-ego, pois a menina, com seus quatorze anos, nem adquirira ainda um “eu” verdadeiro. Clarice também não saberia definir o seu “eu” verdadeiro, não obstante sabia que ele estava ali, mesmo escondido dentro daquela natureza atômica, mesmo oculto dos olhos vazios das pessoas que a rodeavam. Ainda assim acreditava naquele “eu” que de vez em quando, na escuridão de uma noite solitária, fazia questão de se manifestar. Um ego monstruoso que as vezes ria da insignificância da menina. Um ego que possuía tentáculos que aprisionam todas suas ambições. Um ego que por pouco, não tomou ainda o lugar daquele ser humano estragado.

Ali mesmo, da cozinha,compreendia o papel que cada um encenava naquela família; a mãe é a típica mãe que tenta agradar à todos mas que na verdade agrada somente alguns, o pai é o típico pai que paga as contas, exige a presença da família nos horários das refeições e faz churrascos aos finais de semana, a irmã não é tão típica, porém se encaixa no modelo adolescente alienado como os típicos adolescentes alienados. E ela? A qual típica classe pertence? E a resposta vinha a tona como aquelas borboletas do jardim que traziam mensagens no seu mundo dos sonhos: “Sou de uma classe rara de personagens que entram em conflito direto com seus criadores.” Clarice se dava ao luxo de ignorar seu criador “ Vós me abandonastes, e eu também vos abandonei.” Não compreendia qual o motivo que levou suas pernas decidirem nunca mais a obedecer. Não compreendia como um esqueleto poderia simplesmente a ignorar. E foi assim que começou a não obedecer uma idéia de Deus, e foi assim que decidiu ignorar uma idéia de Deus.

Terminado o café ela retornou para o seu refúgio. O quarto de Clarice era um verdadeiro ying-yang, de um lado ficava a irmã com seu mundinho claro, transparente que mudava de estação para estação e do outro lado ela com seu refúgio escuro, obscuro e permanente. Sentia-se desrespeitada pelos pais, como poderiam obriga-la a dividir um quarto com a irmã. Ela tinha suas particularidades, seus segredos, seus momentos íntimos, e não queria dividi-los com aquela que um dia lhe apresentaram “Ei, Cla, essa é a Paula, sua irmã mais nova. Dê um beijinho nela, filha!”. Naquele dia, ela teve a primeira sensação de disputa e tomou consciência que a partir daquele instante teria que começar a provar para os pais o quanto ela era melhor do que aquele bebe sem pêlo. Toda noite observava a irmã que dormia ao lado, ela não entendia o que Paula era. “Ser é tão grande para alguém que só se preocupa com a roupa da última moda.” A irmã, para ela, derrubava todas as crenças de existir um criador perfeito. “Se existir um Criador, ele é bem pior que sua criação. Toda obra está acima de seu Criador.” Para Clarice, Deus nunca foi uma justificativa para tudo que existe, mas apenas uma desculpa que o primeiro homem, relativamente racional, arrumou para não se sentir tão só.

Entre pensamentos e o tempo a noite se anunciou. Clarice passou boa parte do dia ocupada com seus sentimentos que a inferiorizavam perante a irmã. Na verdade a presença de Paula nunca a incomodara tanto quanto naquele momento. Parecia que todas suas auto-promessas de vingança pediam para serem cumpridas. A irmã entrou no quarto deu um beijo em sua face e desejou-lhe uma boa noite.
Aquela noite estava sendo tão longa que ela começara a questionar sobre sua concepção de tempo. Ouviu uma batida na janela e imaginou serem os galhos da seringueira do jardim. Sentiu uma batida forte dentro dela, contudo não conseguiu definir o que estaria provocando aquilo. Qual seria o membro que conspirava contra ela? Que forma de vida tinha o intento de chamar sua atenção? O que poderia ser considerando vivo, aquilo que insistia em sair de dentro dela ou aquilo lá de fora, no jardim, que planejava entrar? Eram tantas questões que alfinetavam a mente da menina: a mente de uma menina de dezoito anos, que aos treze foi colocada definitivamente na cadeira de rodas por causa de uma doença rara. No começo não se adaptara à perda de seus dois membros que a locomoviam. Tanto era, que as vezes sentia uma coceira no pé, entretanto não havia pé, só havia a ilusão da coceira. Foi quando ela descobriu que também não existia mais dor, não existia mais felicidade e não existia mais amor. Almejava resgatar todos estes sentimentos de volta e foi então que ela teve a brilhante idéia de conseguir a qualquer preço um par novo de pernas. Contudo não poderia ser um par de pernas mecânicas, teriam que ser autênticas e constituídas da matéria atômica. Ela tinha a necessidade de sentir novamente o sangue correndo entre as veias de uma perna, a necessidade de sair correndo, quase flutuando, sem um norte, sem cadeira com rodinhas e sem deixar a mãe preocupada. Na verdade, Clarice sentia a necessidade de vida, e só depois que perdeu as pernas que ela veio a perceber o quanto que a vida estava relacionada com a possibilidade de caminhar sozinha.

Três horas da manhã e suas pálpebras nem cogitavam fechar. Ali, naquele quarto, um ser humano insone planejava uma maldade imediata, pois futuramente a humanidade enxergaria aquela atitude como um bem. Clarice sempre acreditou que toda ação feita em nome da evolução da espécie humana é justa. E o bem e o mal deveriam ser analisados a longo prazo. Retirou debaixo do colchão um serrote que encontrara no porão da casa e que possivelmente pertencia ao pai. Jogou-se no chão ao lado da cama da irmã, observou as pernas de Paula com uma cobiçosa admiração, sentia uma necessidade existencial de possuí-las e nem cogitou que por mais que as tomasse, jamais poderia usufruí-las. Eram perfeitas para ela, seriam úteis para um ser humano que intentava fazer algo de útil para uma humanidade tão mesquinha.
“Perdoe-me Paula, mas eu farei melhor uso delas.” E logo que a garota afirmou isso, um grito de dor acordou à toda vizinhança. O grito já não era só de dor, o grito era também um lamento de um animal que perdera a disputa da vida por ter se deixado dormir enquanto o seu inimigo estava a paisana estudando todos seus movimentos e criando estratégias equiparadas à lei natural que rege à todos os animais do planeta.
Ela olhou ao redor e percebeu que todos que se encontravam no tribunal a condenavam. Tinha consciência que jamais seria absolvida pelo júri, jamais seria absolvida pela sociedade e nem mesmo pela família. Um bando de borboletas invadiu o local e Clarice sentiu-se segura, por mais duras que fossem as palavras proferidas em seu ouvido, ela sorria e o seu sorriso era vitalício, um sorriso guardado durante os séculos e que florescera na noite em que ela reivindicou seu direito à vida.


Lisa Alves - Janeiro de 2004





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Imagem: Sandman - Caçadores de Sonhos


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CARTA DE UM MOCHILEIRO
Parte IV



Jan Saudek


Pequenas anotações


Jamila

ou algumas pessoas realmente não estão a venda


Construí métodos alternativos para conhecer o incrível universo humano
Dentre vários o mais importante e eficaz foi: Mostre para o outro o que ele tem a ganhar contigo.
Não é necessário dizer-lhe isso, apenas jogue iscas.
Foi assim que conheci Jamila – uma criatura doce, acanhada que não deu muita importância para o que eu carregava. Apenas ofereceu uma cama e o melhor jantar de toda minha vida.


Condados

Passei um bom tempo percorrendo vilas, cidades, comunidades e o melhor: dormi varias vezes coberto por um bilhão de estrelas – se é que existe um número exato para elas.
Conheci Maranata nessa peregrinação – uma comunidade singular, cujas pessoas parecem conviver bem com a palavra diferença.



Bares, poemas & rock in Blues

Uma estrada, um bar, uma mesa de sinuca, um som legal que transportou meu nômade coração para leitos quentes e confortáveis.

A boca de Jamila baila na minha boca.
O corpo de Jamila treme em minhas mãos.


Deixo Beatriz para Dante. Queimem no inferno!



Lisa Alves


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CARTA DE UM MOCHILEIRO
Parte III



Jan Saudek

Ser tão sozinho em meio a tantos ombros,
andar aos mil num corpo só, franzino,
e ter braços enormes sobre as casas,
ter um pé em Guerrero e outro no Texas,
falar assim a chinês, a maranhense,
a russo, a negro: ser um só, de todos,
sem palavra, sem filtro,
sem opala: há uma cidade em ti, que não sabemos.


Canto ao homem do povo Charlie Chaplin – Cantar de Amigos – Carlos Drummond .



Dois litros de água e uma carta sem um provável destinatário. Segundo meus cálculos de probabilidade estes escritos seguirão comigo para sempre. A vantagem disso é que adquiri uma caligrafia admirável – quem diria que o garoto sem identidade na escrita um dia encontraria uma letra com personalidade? É ninguém diria e provavelmente ninguém dirá. Três horas da manhã e o hotel continua silencioso, a cama é confortável, mas apesar disso não consegui me transportar para o sono dos justos. Creio que a liberdade adquirida irá manter-me muito tempo acordado. E pensar que quando conheci Beatriz as grades da prisão eram totalmente invisíveis. O sono vinha junto com o aroma de dois apaixonados.

E foi assim que tudo começou...


O PRINCIPIO DE UM CAMPO SEM FLORES

Jan Saudek

E o tempo que levou uma rosa indecisa a tirar sua cor dessas chamas extintas.
Era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um secreto investimento em formas improváveis


Campos de Flores – Amar-Amaro - Carlos Drummond



Quando percebi aquela presença feminina uma explosão interna aconteceu – Big-Bang pessoal ou um cataclisma de hormônios? Foi a primeira vez que a vi. Os olhos pareciam um satélite natural e foi então que senti uma necessidade física de ser regido. O Homem de Ninguém decidiu entregar-se para ser semeado, cultivado e quem sabe produzir uma safra boa – daquelas que além de lucro proporciona um sabor especial.

Beatriz dançava bêbada, sorria para todos e de vez em quando me olhava. Eu ali, mais deslocado do que um móvel antigo, fingia não perceber os olhares curiosos daquela mulher que em poucos segundos conseguiu fazer com que meus batimentos cardíacos acelerassem. Sentado no sofá, acompanhado de duas amigas, fazia de tudo para parecer descolado, contudo sempre me dei mal nessa brincadeira de fingir ser quem não sou. O resultado foi uma taça de vinho despedaçada no chão e o riso debochado da mulher oportunista que aproveitou a situação para se apresentar:

– O moço bebeu demais ou foi a taça que não suportou o conteúdo barato?
– Não creio que a anfitriã dessa maravilhosa festa serviria um vinho tão chulo assim.
– Prove o meu espumante e perceba a desigualdade de tratamento que rola por aqui.
– Acho melhor não, pois posso ter a sensação de que não sou tão bem vindo.
– O tratamento pode ser modificado. Mas isso vai depender de sua capacidade de conquista.

Nos apresentamos e depois daquela festa compartilhei não só muitas taças de vinho com Beatriz, mas também noites, manhãs, medos, desejos, sonhos e muitas mentiras. Éramos convictos mentirosos, tão convictos que passamos a acreditar em um futuro: filhos, uma casa de campo, um lugar para Beatriz pintar e eu que até então não abria mão de uma vida nômade passei a almejar apenas uma oficina para por em prática minhas invenções sem utilidade pública. Não sei dizer o que me fez permanecer por tanto tempo, não sei dizer se permaneci verdadeiramente. Uma vez li um poema, não me lembro muito bem o nome do autor, até porque nunca tive o hábito de ler muito, sempre gostei mais de música e rara vezes folheava algum quadrinho. Mas lembro que dizia algo assim: onde não há jardim, as flores nascem de um secreto investimento em formas improváveis. Talvez tenha sido assim minha permanência, através de um secreto investimento. Mas onde estão as flores? Será que o Grande Jardineiro não abençôo sua formas improváveis? Observo a paisagem da janela do hotel e tudo que vejo é um solo queimado e uma estrada implorando por minha passagem.


Lisa Alves


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CARTA DE UM MOCHILEIRO
Parte II




Jan Saudek


Peguei a estrada e nem mesmo cogitei a idéia de jogar pedacinhos de pão para que Beatriz me seguisse. É estranho, estou sentindo depois de muitos anos uma sensação rara de liberdade. Parei em um desses hotéis de estrada e pedi uma bebida decente, dessas que faz um homem sentir-se forte e soberano diante das circunstâncias da vida. “Por favor, uma dose dupla de água, pois hoje não estou a fim de chorar pelo que ficou para trás”. A moça do hotel encarou-me com um assombro, então repeti: “Eu só quero um copo com água e uma cama confortável.” Ela me entregou uma chave e disse que no quarto teria água suficiente para uma noite inteira. Deitei em uma cama que não me pertence, para ser sincero já tem muitos anos que uma cama não me pertence. É interessante esses lugares feitos para pessoas passageiras: são tão iguais, tão silenciosos e possuem o mesmo cheiro de lavanda. Já ia me esquecendo de mencionar o criado mudo, tão mudo quanto o silêncio ensurdecedor do hotel. Naquele momento uma música visitou minha memória:

“Fique a vontade meu bem
Sinta vontade de ficar
Não tenha pressa
Quem sabe aqui é seu lugar
Mas se tiver de ida
Vê se não vai assim sem mim “


Nestas horas as canções começam a fazer sentido e as lembranças tomam conta. Não, eu não poderia trazê-la! Seria um erro. Beatriz ficou em seu lugar e eu encontrei o meu: nessa estrada, cheia de marcas, onde todos vão e vem exercendo um de seus direitos fundamentais. Ela me procurou, depois de meses deu sinal de vida. Falou da falta que sentia, recordou pequenos dramas, contou sobre a nova exposição de seus quadros, trouxe uma foto que tiramos a beira do lago artificial da cidade. Mas nada daquilo fazia mais sentido, tudo que eu queria era o tempo presente e isso ela não poderia mais me dar. A canção revisitou a mente:

“Diz que quando eu for embora
sempre vai me procurar
Não que eu não queira
Sempre eu vou te amar
E em cada estação
Em que não puder estar
Levo essa saudade
Enquanto não posso te levar
E no fim desse sufoco
Espero contar com a sorte
Se ela existe,
Que só a morte possa nos separar. “



Lisa Alves



Canção: Sinta vontade de ficar- Artista: Canto dos Malditos na Terra do Nunca


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:: Sexta-feira, Junho 06, 2008 ::




Cada vez que coloco os pés no chão
sinto a familiaridade de um mesmo solo

É como se existisse uma lei maior que teima em dizer:
Toda repetição tem um significado único.



______________________________________________________________________________________________________________
Tempo material (setembro - 2005)

Tão metódico quanto o desenvolvimento humano, tão certo quanto as catástrofes e revoluções,
tão sutil e desapercebido quanto o nosso amor e tão mundano quanto o nosso desejo.

Acordamos quando ele nos desperta e a severidade de segui-lo se torna um hábito civilizatório.

Estamos doentes e nossos pulmões estão cheios de um ar miserável que nos alimenta de sobrevivência.

Ontem, nos afastamos acreditando no poder transformador de um tempo: "nada se perde tudo se transforma".

Mas do tempo a única coisa que desejamos é o poder de cura.

Eu tinha em mãos o meu próprio tempo e através dele mapeava meu futuro.

E então você chegou e disse: O tempo nos mentiu.



Lisa Alves


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:: Quinta-feira, Maio 29, 2008 ::

pintura: Victor Cauduro

Retorno ao Sistema
Ou a incrível história de alguns camaRAdas.




Eram átomos implorando pela formação de algo

Não havia cores, cheiros e nenhuma forma de barulho.

Mergulhávamos a mão em algo invisível e foi assim que percebemos que depois de certo ponto desaparecíamos.

Deceparam partes por partes dos nossos corpos. Mas mesmo assim éramos insistentes – sempre tocávamos na camada.

Um dia ficamos todos invisíveis, intocáveis e a natureza atômica da matéria se transmutara apenas em idéias.

Nossas reuniões eram em publico mesmo – já que ninguém poderia nos enxergar. (ou detectar nossas presenças através dos cinco sentidos)

Mas o pior aconteceu: um dos nossos cansou do anonimato e decidiu voltar para o outro lado da camada.

Assim um a um foi indo – desejávamos ser vistos, pois a vida clandestina não proporcionava reconhecimento.

Nunca mais fomos vistos juntos, a visibilidade do mundo foi capaz de jogar-nos em terras diferentes.

A camada continua ali: sem cor, cheiro e sem nenhuma forma de barulho.

Eles esqueceram. Nós esquecemos.



Lisa Alves


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