:: Metamorfose de Monstros ::

Filhos do Lamentável Mundo Novo, este blog têm vida própria. Esta que vos escreve é apenas um instrumento de um Monstro tão belo quanto Apolo e tão feio quanto Pã. Este blog não têm proposta alguma, não defende nenhuma causa, seja ela política, religiosa, sexual ou filosófica. Foi feito por puro sentimento; ora de dor, ora de prazer ( mas afinal, a arte não é isso?).
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Lisa Alves

Brasília-DF

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:: Quarta-feira, Dezembro 17, 2008 ::

CARTA DE UM MOCHILEIRO - PARTE X



VI

Nos porões da família
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado. - Nosso Tempo - Carlos Drummond de Andrade




Não consigo falar, as palavras pesam e quando não pesam tornam-se confusas. Tem horas que posso jurar que meus pensamentos foram verbalizados em outra língua. Hoje pela manhã recebi uma dose de medicamentos na veia, não me foi permitido saber qual o nome do poderoso líquido: panacéia ou cicuta? Vida longa ou morte acelerada? Desconheço as intenções do mundo exterior, apenas sei das tensões do meu mundo interior. Medo? Não, meu organismo não gera mais resposta de alerta por conta de qualquer estimulo mental. Parece que todas as imagens são aceitas como uma idéia de algo conhecido (leia-se conhecido e não reconhecido). É como a história de um homem que de acordo com minhas crenças existiu em minha infância: ele reconhecia as pessoas apenas pela voz, as imagens já não ficavam guardadas na memória. Comigo é o oposto, algumas pessoas me deixam a vontade, sinto certa familiaridade, presumo que de alguma forma alguém ou algo as colocaram aqui dentro, embora não exista nenhum objeto de ligação que me faça reconhecê-las.
A escrita? É minha única ligação de prováveis existências, cartas que nunca foram enviadas... Cartas que permaneceram para um destinatário do futuro.



Lisa Alves


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:: Sexta-feira, Dezembro 05, 2008 ::
CARTA DE UM MOCHILEIRO - PARTE IX


Jan Saudek

"Eu, agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?"
- Mário Quintana




Eu tenho pêlos brancos, um mapa traçado na face, meu cheiro mudou, minhas pernas doem, meus braços estão fracos e a claridade do dia entorpece minha visão.

Ainda consigo escrever, mas depois de certa hora minhas lembranças somem.
Sinto falta de companhia, sinto falta da estrada (embora ela nunca tenha existido de fato)

Quem é Jamila? Quem é Beatriz? Quem é? – tenho quase certeza que muitas coisas na minha vida nunca foram.

Que voz é essa?

De onde vem?

Quem é você?

Pai?

Ela chamou-me de pai!

Estou com sono. Ela continua observando-me.

Quem é ela?

Ela chamou-me de amor.





Lisa Alves


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